O Castelo

Como um dragão que guarda seus tesouros do mundo, imaginando o que poderia fazer se os usasse, mesmo sabendo que nunca o fará, guardo aqui minhas quimeras, minhas letras, que para mim tem alto e caro valor. Guardo-as, mesmo que um qualquer possa visualizá-las, ainda assim são minhas palavras e, como tais, as guardarei. Este é o meu espaço, este é o meu castelo.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Noturno


A noite já era alta quando o repórter Alexandre Silva chegou em casa. Sala e cozinha em uma só peça, quarto pequeno e um banheiro que não dava para atravessar sem ficar de lado. Tudo isso apertado no décimo segundo andar de um prédio no centro de Porto Alegre. Ao menos a vista noturna era boa, da janela da sala se via o gasômetro, da do quarto o Centro Administrativo e do banheiro a sacada onde um homem gordo e peludo lavava as roupas pelado. Essa última parte da vista não era tão agradável, mas, ao menos, era engraçada.
Mesmo sem acender as luzes, a lua tornava o ambiente claro o suficiente para um homem não esbarrar em nenhum objeto de sua própria casa. Acomodado na poltrona, apoia os pés sobre um sem número de jornais e revistas, que cobriam a mesa de centro. A sala toda, aliás, parecia coberta desse tipo de material. Da mesma forma, o quarto possuía um guarda-roupa simbólico, visto que tudo que deveria estar em seu interior estava espalhado pela peça. O tempo transcorrido desde a última limpeza completava o retrato do caos.
A mão quase encontrou sozinha a garrafa de vodca, que jazia encostada na poltrona. A mente repassava o dia desagradável que se encerrava. Quando a bebida desceu, o devaneio cessou. Preciso comprar um energético. Alguns goles depois, os olhos cedem ao peso do cansaço.
Um estouro repentino desperta o repórter. Desorientado, tanto pelo sono como pelo álcool, leva alguns minutos para organizar as ideias. Veste o sobretudo, deixado sobre a mesa ao chegar, apanha a câmera portátil e guarda num bolso. Sai no corredor e aguça os ouvidos. Um grito agudo corta a noite e gela o sangue do homem.
O corredor estava deserto e cada passo de Alex rangia nas tábuas antigas do chão. Mais alguns passos e ele ouve novos ruídos e depois, mais uma vez, o silêncio reinou. Apressando o passo, encontra a origem das perturbações. Sem esperar, de fato, uma resposta, pergunta se havia algo errado. Para sua surpresa, uma voz feminina, audivelmente alterada, responde dizendo estar trancada no apartamento e que havia um homem morto lá dentro.
As possibilidades ferviam na mente do repórter, embebida pelo álcool. Ele respira e reflete por um instante. A despeito da reflexão, a pergunta é automática: “o que aconteceu?”. A voz do outro lado da porta hesita por um instante e diz que acordou com o barulho e encontrou o homem, já sem vida, no chão da sala. Alex sabia que algo não estava certo, mas não conseguia perceber o que era. Ele olha para os lados, como que à procura de uma resposta. Viu o tapete sob seus pés e lhe ocorre uma ideia: “Não custa tentar”. Levantou o tapete e, para sua própria surpresa, a chave estava ali. Um breve sorriso de satisfação surgiu em seus lábios. Apanhou a chave, colocou a fechadura e girou. Na verdade, tentou, já que a fechadura continuou inerte como estava. “Ótimo”, pensou com sarcasmo e sem entender. Sem refletir muito mais, avisa a mulher que se afastasse da porta. Alguns encontrões e a porta cedeu.
Quando a porta abriu com um estrondo, Alex entendeu o porque da sensação de estranheza. A mulher era uma garota de, no máximo, dezenove anos vestida com uma minissaia de vinil e uma blusa muito pequena para seu tamanho. Seu cabelo caía até o ombro e tinha a inconfundível tonalidade do descoloramento com água oxigenada. A maquiagem excessiva de sua boca e olhos estavam borrados. O homem jazia deitado de barriga para cima. Provavelmente ele iniciava sua segunda metade de século e, com toda a certeza, era o dono do apartamento.
Toda a visão do panorama se deu em um instante e Alex se sentiu a mais tola das criaturas quando se deu conta de que, em nenhum momento pensara em ligar para a polícia. Antes de respirar sequer uma vez, a garota atingiu sua cabeça com um objeto qualquer que trazia às costas.
A dor de garganta foi a primeira coisa de que tomou consciência quando o despertador do celular começou a tocar. Esticando o corpo para fazer o aparelho silenciar, sentiu a cabeça latejar e o travesseiro úmido. Sonolento e dolorido, Alex tateou a procura da garrafa, mas encontrou uma forma de gelo vazia. Sentado, viu que a umidade vinha de uma toalha de rosto caída ao lado do travesseiro. De súbito, tudo lhe veio à memória.
Apanhou o celular e desligou o despertador, que ainda cantarolava. Abaixo dele, encontrou um bilhetinho escrito em caligrafia pouco exercitada.

Obrigada e desculpa o mau jeito.
Quando quiser que eu agradeça me liga, é por conta da casa.

Uma boca de batom laranja assinava ao final e um número de telefone vinha mais abaixo. Caminhou até a sala com o bilhete e sentou na poltrona. Refletiu sobre a situação por um minuto, pegou o telefone fixo e discou o número do bilhete.
- Alô?
- Aquele agradecimento tá de pé?

0 comentários: